Desocupação provocou pobreza; fazendeiros se beneficiaram

Em 2013, a PF retirou mais de 2,4 mil pessoas que ocupavam a terra Marãiwatsédé
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Homem resiste a deixar a área no Distrito de Estrela do Araguaia, em 2012
José Medeiros

MARÃIWATSÉDÉ – 9 ANOS DEPOIS

Nove anos após a megaoperação da Polícia Federal que resultou na retirada dos não indígenas da Terra Indígena (TI) Marãiwatsédé, no Nordeste de Mato Grosso, o local volta ocupar o centro do noticiário.

Desta vez a PF descobriu um esquema de arrendamento ilegal com a suspeita da participação do cacique Xavante Damião Paridzane.

Entre o final de 2012 e início de 2013, uma força-tarefa do Governo Federal fez uma grande ação para retirar moradores a fim de que as terras fossem entregues aos indígenas. A desintrusão foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal. 

O superintendente da Polícia Federal, Sergio Sadao Mori, recorda que mais de 2.400 pessoas precisaram deixar a TI, que fica na região do Município de Alto Boa Vista. Segundo Mori, parte desses ocupantes morava na região havia muitos anos, tendo alguns até nascido no local.

Uma boa parte dos expulsos da área eram pessoas de baixo poder aquisitivo e muitos ficaram sem emprego e renda.

A desintrusão demandou muito investimento financeiro da União e contou com o apoio do próprio cacique Damião, que almejava uma terra para o povo.

“Foi um evento bastante sério, dificultoso. A União investiu bastante sua energia, mão de obra e houve bastante desgaste institucional e social”, explica o superintendente.

“As pessoas que foram retiradas em 2014 até hoje, conforme consta, estão algumas delas sem moradia

“Para nossa surpresa, descobrimos que essa região estava sendo novamente ocupada por fazendeiros, que agora estavam criando gado lá”, acrescenta.

A Polícia Federal afirma que recebeu a denúncia sobre a nova ocupação no final de 2021 e desde então começou a investigar as atividades na Terra Indígena.

Foi durante essas apurações que se descobriu o esquema de corrupção que envolvia fazendeiros, o líder indígena e servidores da Funai.

Dessa vez, além de ocupar a TI, os grandes fazendeiros também estavam arrendando as terras de forma ilegal. 

Enquanto isso, acusa a PF, tudo era arranjado pelo próprio coordenador da Funai de Ribeirão Cascalheira, Jussielson Gonçalves Silva, e com apoio do cacique.

Além deles, o ex-policial militar Enoque Bento de Souza e o policial militar na ativa, Gerrard Maximiliano Rodrigues de Souza, ambos do Amazonas, também estariam envolvidos.

Apesar de o esquema só ter sido descoberto recentemente, o delegado da PF, Mário Sérgio Ribeiro de Oliveira, explicou que a Terra Marãiwatsédé já estava sendo ocupada de forma ilegal pelo menos desde 2017, quatro anos após a desintrusão.

Desde aquele período, estima-se que o cacique conseguia faturar cerca de R$ 270 mil mensais com os 50 arrendatários que estavam na região.

No entanto, o delegado explica que com a chegada do coordenador da Funai, o esquema começou a ser coordenado e grande parte dos fazendeiros foram expulsos.

“Quem foi expulso? Aqueles que não tinham condição de pagar a propina que era solicitada pelos servidores da Funai”, afirma.

Ao final, sobraram apenas 15 arrendatários que foram alvos da operação desta quinta. Apesar de não terem sido presos, os envolvidos serão indiciados pelo dano ambiental cometido na Terra Indígena.

Ao todo, a perícia estima o valor para reparação do dano ambiental em R$ 58.121.705,87.

“As pessoas que foram retiradas em 2014 até hoje, conforme consta, estão algumas delas sem moradia”, afirma o delegado.

“Então, a liderança indígena que lá em 2014 lutou pela retomada da terra é a mesma que hoje está arrendando a área para pessoas que estão pagando para cometer crimes ambientais”, conclui.

VITÓRIA GOMES
MÍDIA NEWS

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