Justiça EXPLODIU ESQUEMA
Vereador denunciou proposta de propina e sacola com R$ 100 mil na casa da mãe do presidente da Câmara de Várzea Grande
Peticão criminal detalha depoimento explosivo ao GAECO, revelando propina de R$ 10 mil ligada a empresa de ônibus, ameaças com armas e pressões políticas na Câmara de Várzea Grande.
21/10/2026 14h19
Por: Redação Fonte: ANA ADÉLIA JÁCOMO KARINE ARRUDA
Denúncia detalha depoimento de Caio Cordeiro (à esquerda) revelando propina de R$ 10 mil bancada por Rômulo Botelho, da União Transportes

O site teve acesso aos detalhes do depoimento prestado pelo vereador Caio Cordeiro (Novo) ao Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (GAECO), que revelou os bastidores de um esquema de corrupção, cooptação e intimidação na Câmara Municipal de Várzea Grande.

Os relatos detalhados constam nos autos do procedimento investigatório que mapeou a atuação da cúpula do Legislativo municipal. Em depoimento prestado ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), o parlamentar detalhou que, durante as articulações para a reeleição da Mesa Diretora, o então presidente da Casa, Wanderley Cerqueira (MDB), tentou assegurar seu voto por meio de suborno.

"Wanderley Cerqueira lhe ofereceu diretamente R$ 100.000,00 para que votasse em sua recondução, afirmando que o numerário se encontrava em uma sacola disponível no escritório situado na residência de sua genitora", aponta o documento oficial do Gaeco.

A residência da mãe do ex-presidente foi identificada nas investigações como o ponto central onde ocorriam reuniões de alinhamento político e tratativas escusas do grupo.

"Mensalinho" de R$ 10 mil

Conforme os documentos reunidos pelo Gaeco, as pressões e ofertas de vantagens indevidas se intensificaram após o parlamentar iniciar fiscalizações e propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar irregularidades no sistema de transporte coletivo municipal.

O vereador relatou aos investigadores que Wanderley Cerqueira lhe propôs o pagamento regular de propina. "O pagamento mensal de R$ 10.000,00, alegando que os valores seriam custeados pela própria empresa [União Transporte e Turismo Ltda.], por intermédio de Rômulo Botelho", figura apontada como sócio-proprietário da concessionária e detentora de forte influência em contratos públicos.

Relatórios técnicos e anexos de áudios recolhidos pelo órgão ministerial demonstram que diversos interlocutores tentaram demover Cordeiro de levar adiante a investigação da empresa de ônibus, com tratativas que sugeriam acordos para blindar interesses na Casa Legislativa.

O depoimento colhido pelo Ministério Público expõe um cenário de forte retaliação e cerceamento após o rompimento político de Caio Cordeiro com o grupo governista. O parlamentar detalhou uma escalada de pressões que atingiu seu gabinete e sua vida profissional.

O vereador sofreu retaliações diretas com a exoneração de assessores e servidores lotados em seu gabinete por ordem da presidência da Câmara. Cordeiro apontou pressões em sua atuação como jornalista, culminando em seu afastamento da TV Cidade Verde após recusar-se a apoiar a recondução da cúpula da Câmara.

Um dos episódios mais graves narrados no inquérito envolveu a tentativa de obstruir a atuação fiscalizatória do parlamentar. Cordeiro denunciou o furto de sua mochila, que continha um notebook pessoal e documentos para a CPI, incluindo cópias de assinaturas de apoio à investigação, contratos da União Transporte e gravações comprometedoras.

Reprodução

Por meio de um vídeo publicado no Instagram, o vereador Caio expôs as ameaças que teria recebido.

Dias após o crime, o vereador passou a ser alvo de intimidações virtuais. "Recebeu contato de pessoa não identificada que demonstrava conhecimento acerca do notebook e exigia a retirada do boletim de ocorrência, acompanhando a exigência com ameaças e com o envio da imagem de uma arma de fogo", detalha o relatório do Gaeco.

As investigações do Ministério Público prosseguem com base nos relatórios técnicos, mídias e documentos que foram apreeendidos na operação.

Relação dos parlamentares e alvos investigados:

Wanderley Cerqueira (MDB) – Presidente da Câmara

Gisa Barros (Podemos)

Rogerinho Dakar (PSDB) – Ex-presidente do DAE-VG / Suplente

Cilço da Cruz (PV)

Braz Jaciro (PSDB)

Alecsand / Alessandro Moreira (MDB)

Wender Madureira (Republicanos)

Sargento Galibert (PSB)

Dr. Miguel (Cidadania)

Lucélia Oliveira (Agir)

Kleberton Feitoza (PSB)

Raul Curvo (Republicanos)

Enfermeiro Emerson (PP)

Vereadores de Cuiabá alvos da operação:

Alex Rodrigues (Podemos)

Ilde Taques (Podemos)

Servidores de Várzea Grande:

Lorineide – diretora financeira da Câmara

Samir Katumata (PL) – secretário legislativo e suplente

Entenda o caso

Em maio, uma denúncia anônima protocolada junto ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) detalhou a criação de um suposto "quartel-general" da corrupção para garantir o resultado da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Várzea Grande.

Segundo o documento apurado pelo site na época, a articulação era liderada pelo presidente da Casa, Wanderley Cerqueira (MDB). O plano consistia em manter 12 vereadores em regime de confinamento e sob escolta de policiais à paisana em uma chácara localizada no distrito de Nossa Senhora da Guia, em Cuiabá.

Drone do Gaeco flagrou reunião de vereadores em chácara antes de eleição da Câmara de VG

A propriedade pertence ao vereador Dr. Miguel (Cidadania) e o isolamento servia para aguardar a data da sessão que definiria o comando do Legislativo.

A denúncia repassada ao Ministério Público também alertou para a circulação de um grande volume de dinheiro em espécie no local, supostamente destinado à compra de votos.

Além da disputa pela presidência da Câmara, o documento apontava que o objetivo da organização ia além: o plano do grupo envolvia forçar a cassação da prefeita Flávia Moretti (PL) para assumir o controle total do município, com foco estratégico em um pré-acordo de propinas e acertos voltado para a bilionária privatização do DAE (Departamento de Água e Esgoto).