Entre plantações, pastagens e fragmentos de floresta, uma mãe lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) caminha acompanhada de seus três filhotes. O registro na região da Estação Ecológica (EE) Barreiro Rico, entre os rios Piracicaba e Tietê, revela a presença de uma espécie silvestre ameaçada de extinção em uma paisagem protegida pelas atividades humanas. Além de ser uma cena rara, a presença da família evidencia a importância de conservar os ambientes naturais que ainda abrigam a fauna paulista.
A Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), atua na proteção da biodiversidade por meio da gestão das Unidades de Conservação (UCs) estaduais. Na APA Barreiro Rico, os avistamentos de lobos-guarás vêm aumentando nos últimos anos, demonstrando a relevância da região para a ocorrência da espécie. Desde 2020, mais de dez lobos-guarás foram avistados em diferentes pontos da região.
Maior canídeo da América do Sul, o lobo-guará tem pernas longas, focinho estreito e pelagem avermelhada, características que favorecem seu deslocamento por campos e ambientes abertos. De hábitos predominantemente solitários e comportamento arisco, percorre grandes áreas em busca de alimento e abrigo. O registro de uma mãe acompanhada de três filhotes chama a atenção por evidenciar a reprodução da espécie e sua presença na região.
Embora seja associado principalmente ao Cerrado, o lobo-guará também utiliza paisagens rurais modificadas, incluindo plantações de laranja, eucalipto e cana-de-açúcar, além de áreas de pastagem. Esses ambientes podem fazer parte de suas áreas de circulação, mas a proximidade com estradas, atividades agrícolas e estruturas construídas pelo ser humano aumenta os riscos à sua sobrevivência.
“Esse registro reforça a esperança na conservação da espécie, mas também a importância de redobrar os cuidados para evitar atropelamentos de animais silvestres nas estradas que cortam ou ficam próximas às áreas naturais”, afirma o gestor da EE Barreiro Rico, João Marcelo.

A dieta diversificada é uma das características importantes da espécie. O lobo-guará consome frutos, como os da lobeira e da palmeira-jerivá, além de pequenos mamíferos, aves e répteis. Ao consumir frutos e dispersar sementes por meio das fezes, contribui para a regeneração da vegetação e para a manutenção das relações ecológicas.
Essa função evidencia como a conservação de uma espécie vai além da proteção de um único animal. Ao preservar o lobo-guará e os ambientes de que depende, também favorece a manutenção de processos naturais importantes para a biodiversidade.
Em Barreiro Rico, a conservação da biodiversidade também passa pela prevenção de incêndios florestais. Segundo o gestor João Marcelo, desde 2018 não há registro de incêndios na região, resultado da articulação entre a Fundação Florestal, órgãos públicos e privados, brigadas e proprietários rurais. Ações como implantação de aceiros, patrulhamento e mobilização local contribuem para proteger os ambientes naturais.
“Graças aos esforços da Fundação Florestal e ao trabalho integrado com a rede de brigadas, estamos celebrando o octênio, oito anos sem incêndios florestais na área. O último registro ocorreu em 2018, enquanto o episódio mais devastador foi em 2012”, destaca o gestor.
A participação dos proprietários rurais e de seus colaboradores é considerada fundamental para a continuidade das ações. A educação ambiental também integra esse trabalho, por meio de iniciativas como os projetos “Barreiro Rico na Escola” e “Barreiro Rico na Praça”, além de palestras e oficinas voltadas à conscientização da população.
A redução de atropelamentos também faz parte das medidas de proteção. Entre as iniciativas estão a identificação de trechos críticos, o monitoramento de animais atropelados e a instalação de placas informativas. Em 2024, foi concluída uma travessia aérea para o muriqui e outros animais sobre a via identificada pela gestão como AHB171, conectando a Estação Ecológica à floresta da Fazenda Bacury.
A presença de uma mãe lobo-guará com três filhotes representa um momento importante para a região e reforça a relevância do trabalho da Fundação Florestal em Barreiro Rico para a conservação da espécie.

Apesar da importância ecológica e dos registros de ocorrência em áreas protegidas, o lobo-guará enfrenta ameaças como a perda e a fragmentação de habitats, os atropelamentos, a caça e a exposição a doenças. O contato com animais domésticos também exige atenção, principalmente em paisagens onde áreas naturais e atividades humanas estão próximas.
Entre os riscos à saúde do lobo-guará estão a sarna sarcóptica, a cinomose e a parvovirose canina, além de parasitoses intestinais e infestações por carrapatos e pulgas. Também há registros de exposição a agentes infecciosos associados à leptospirose e a outras enfermidades.
A sarna sarcóptica, causada por um ácaro, provoca coceira intensa, queda de pelos e lesões na pele. Em casos graves, pode debilitar o animal e comprometer sua condição física. A transmissão pode ocorrer pelo contato direto com animais infectados ou indiretamente, por meio de ambientes contaminados.
Já a cinomose pode comprometer os sistemas respiratório, digestivo e nervoso, enquanto a parvovirose pode causar quadros gastrointestinais graves. A proximidade entre cães domésticos e canídeos silvestres pode favorecer a circulação de agentes infecciosos, especialmente em paisagens fragmentadas.
A prevenção inclui a vacinação dos cães, guarda responsável e controle do acesso de animais domésticos às áreas protegidas. Essas medidas ajudam a reduzir os riscos de transmissão e contribuem para a conservação da fauna.
“O tratamento de lobos-guarás exige uma abordagem especializada, porque os sinais clínicos podem estar associados a diferentes doenças infecciosas e parasitárias. Por isso, é fundamental realizar uma avaliação criteriosa, com exames que permitam identificar o agente envolvido e orientar a conduta veterinária mais adequada”, destaca Rodrigo Campanha, gestor da Estação Experimental de Itirapina da Fundação Florestal.
A ocorrência da espécie em diferentes regiões do estado também é evidenciada pelos dados do Monitora BioSP. Entre 2022 e 2025, o levantamento contabilizou 3.062 registros e 3.081 ocorrências de abundância de lobos-guarás nas áreas protegidas pela Fundação Florestal, incluídas na base de dados.
Entre as áreas com mais registros no período estão a Estação Ecológica de Itirapina e a Estação Experimental de Itirapina, que somam 1.392 registros, e a Estação Ecológica Jataí e a Estação Experimental de Luiz Antônio, com 831 registros. Também se destaca a Reserva Biológica de Mogi-Guaçu, com 168 registros.
A presença de registros em diferentes áreas protegidas reforça a importância de conservar os remanescentes naturais paulistas, inclusive aqueles inseridos em paisagens agrícolas. Os dados permitem identificar locais de ocorrência, acompanhar padrões de detecção e orientar novas ações de pesquisa e conservação. Eles não representam, isoladamente, uma estimativa do número total de lobos-guarás existentes no estado.
“Os dados do MonitoraBioSP são fundamentais para ampliar o conhecimento sobre a ocorrência do lobo-guará nas UCs paulistas e compreender como a espécie utiliza esses territórios. Essas informações contribuem para orientar estratégias de conservação, identificar áreas prioritárias e fortalecer o monitoramento da biodiversidade, subsidiando ações para proteger a fauna e garantir a conectividade entre os ambientes naturais”, destaca Andrea Pires, diretora de Biodiversidade da Fundação Florestal.
A presença da família de lobos-guarás ganha ainda mais significado quando observada no contexto ambiental da região. A EE Barreiro Rico reúne ambientes naturais, áreas agrícolas, pastagens e núcleos urbanos, formando um mosaico no qual a conservação da fauna depende da convivência entre diferentes usos do território.
A região de Barreiro Rico está situada entre dois importantes cursos d’água do estado, os rios Tietê e Piracicaba, e abriga duas UCs estaduais, sendo a Estação Ecológica Barreiro Rico, criada em 2006, e a APA Barreiro Rico, criada em 2018.
A Estação Ecológica, de proteção integral, possui pouco menos de 300 hectares, enquanto a EE, de uso sustentável, abrange pouco mais de 30 mil hectares. Ambas contribuem para a conservação da fauna e da flora associadas à Floresta Estacional Semidecidual, formação da Mata Atlântica do interior paulista, e à zona de transição com o Cerrado.
O território da EE abrange áreas de Piracicaba, Botucatu, São Pedro e Anhembi. A paisagem combina cultivos de cana-de-açúcar, eucalipto, citros e mandioca, além de pastagens, matas ciliares e grandes fragmentos florestais. Entre esses remanescentes está um maciço de mais de 1.500 hectares, onde se encontram a Estação Ecológica e áreas de Reserva Legal associadas à antiga Fazenda Barreiro Rico.
Essa combinação de ambientes torna a região especialmente relevante para a biodiversidade. O conjunto florestal abriga mais de 37 espécies de mamíferos, incluindo cinco espécies de primatas e quatro de felinos, além de mais de 200 espécies de aves, mais de 30 espécies de anfíbios e répteis e mais de 500 espécies de plantas, segundo os dados fornecidos pela gestão da unidade.
Entre as árvores encontradas na região estão jatobás, guarantãs, perobas, guaritás, canelas, ipês e copaíbas, além de palmeiras como o jerivá e a juçara. A diversidade desses ambientes ajuda a sustentar diferentes espécies e evidencia a importância de manter os remanescentes naturais conectados.
É nesse ambiente que o lobo-guará encontra áreas para circular, buscar alimento e se reproduzir. A manutenção dos fragmentos florestais e dos ambientes naturais associados às áreas rurais é importante para oferecer condições de abrigo, alimentação e deslocamento à fauna.
Em Barreiro Rico, a conservação da biodiversidade também passa pela prevenção de incêndios florestais, apontados pela gestão local como uma das principais pressões sobre os ambientes naturais. Desde de 2018, segundo o gestor João Marcelo, houve fortalecimento da articulação entre a Fundação Florestal, órgãos públicos e privados, brigadas e proprietários rurais. Ações de prevenção, como implantação de aceiros, patrulhamento e mobilização local, passaram a integrar uma estratégia conjunta para proteger as florestas da região.
“Graças aos esforços da Fundação Florestal e ao trabalho integrado com a rede de brigadas, estamos celebrando o octênio, oito anos sem incêndios florestais na área. O último registro ocorreu em 2018, enquanto o episódio mais devastador foi em 2012”, destaca o gestor.
A participação dos proprietários rurais e de seus colaboradores é considerada fundamental para a continuidade das ações. A educação ambiental também integra esse trabalho, por meio de iniciativas como os projetos “Barreiro Rico na Escola” e “Barreiro Rico na Praça”, além de palestras e oficinas voltadas à conscientização da população.
A redução de atropelamentos também faz parte das medidas de proteção. Entre as iniciativas estão a identificação de trechos críticos, o monitoramento de animais atropelados e a instalação de placas informativas. Em 2024, foi concluída uma travessia aérea para o muriqui e outros animais sobre a via identificada pela gestão como AHB171, conectando a Estação Ecológica à floresta da Fazenda Bacury.
A presença de uma mãe lobo-guará com três filhotes representa um momento importante para a região e reforça a relevância do trabalho da Fundação Florestal em Barreiro Rico para a conservação da espécie.
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